Aprender a aprender

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Esse é o discurso que proferi como patrono da turma de Administração no Mackenzie, no último dia 15 de agosto de 2017.

Boa noite, pais, mães, amigos. Boa noite aos professores que compõem a mesa, ao diretor, coordenador. Principalmente, boa noite, alunos e alunas formandos.

Peço licença a todos, mas preciso me dirigir aos formandos hoje.

É uma honra sem tamanho estar aqui mais uma vez hoje, mas é, também, uma grande responsabilidade estar aqui no encerramento deste ciclo tão importante da vida de vocês. Eu espero estar à altura de tal responsabilidade.

Vocês passaram 4 anos, alguns 5, aprendendo, sendo preparados para atuar e viver num mercado competitivo, dinâmico e tudo mais que seus professores cansaram de dizer e que alguns de vocês cansaram de escutar.

Mas eu queria falar de futuro. De um futuro onde dentro de 10, 20 ou 30 anos com carros auto dirigíveis, com órgãos artificiais, fábricas autogeridas. Um futuro onde não precisarão dirigir, onde não existirá filas de transplantes, onde o trabalho será muito mais intelectual do que é hoje. (E esperamos que nenhum maluco exploda o mundo antes disso)

Quantos de vocês já pensaram em como será esse ambiente competitivo, dinâmico e tudo mais daqui a 10, 20 ou 30 anos, quando muitos de vocês – provavelmente todos – estarão ainda no mercado.

Quantos de vocês já pensaram que muito do que aprenderam nos últimos 4 ou 5 anos não terá grande utilidade neste novo mundo que vocês começarão a viver logo que saírem por essas portas hoje?

Mas meu papel hoje, aqui, não é ser o abutre do mau agouro, o profeta do apocalipse que traz à mente um futuro sombrio, ao contrário, venho para lembrá-los das duas lições mais valiosa que aprenderam dentro desta instituição nos últimos anos – e que serão, espero, a chave para desbravarem esse novo mundo que se descortina à frente de vocês: aprender a pensar e aprender a aprender.

Esse futuro, felizmente, não “acontecerá” simplesmente. Ele será criado. E alguém precisará criá-lo. Quem de vocês estará disposto a isso? Quem está disposto a pensar, a questionar, a desafiar o funcionamento das coisas e propor algo novo, melhor? Quem realmente aprendeu a pensar e será criador desse futuro?

E, independente das mudanças que esse futuro trará, alguém precisará conduzir, organizar, administrar todo esse novo mundo, com novas tecnologias, novas ferramentas, novos paradigmas. E quem se manterá no topo, direcionando as novas e antigas organizações nesse novo cenário? Aquele que aprendeu a aprender, que é incansável na leitura, na busca por novos conhecimentos e habilidades.

Eu espero, ansioso, poder fazer parte desse futuro criado e conduzido por muitos de vocês.

E assim – por mais valiosas que tenham sido as aulas de logística, estatística, marketing, finanças, RH, estratégia e tantas outras – nesta noite, enquanto ainda podemos chamá-los “alunos”, espero que lembrem dessas duas lições: não se furtem a pensar; e nunca se cansem de aprender.

Eu já disse que vocês precisam ler mais?

Boa noite, sucesso e que Deus abençoe vocês!

No país dos riquixás 

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Em Tupiland, o país dos riquixás, você é obrigado a reconhecer firma da própria assinatura em cartório e por verossemelhança.

Esse é o país onde ônibus tem cobrador para “gerar emprego”. O mesmo país que proíbe um desempregado de pegar o próprio carro (pelo qual ele pagou 60% do valor em impostos) e transportar pessoas para fazer um troco e pagar a conta de luz. Conta de luz, essa, que é uma das mais caras do mundo, apesar de determos cerca de ¼ da água doce do planeta. Aliás, para tirar essa água de um poço na sua própria casa, você tem que pagar.

Esse é o país que não produz vencedores de prêmios Nobel, mas que importa iPhone 📱 e exporta milho 🌽. O país que tem a CLT para ‘proteger’ o emprego ao mesmo tempo que tem uma das maiores taxas de desempregados do mundo. O país do aluno que faz ‘ocupação’ de escola e, depois, cabula aula pra ir pro bar. O país onde o aluno foge das aulas de matemática. E o professor também.

Nesse país, Steve – ou Esteves – seria o dono da banca de maçã na feira e Bill seria técnico de informática, arrumando computadores antigos eh alguma repartição pública.
Terra de oportunidades? Não. Apenas de oportunistas. A maioria deles, fundando sindicatos e partidos políticos para ser sustentado pelo Esteves e pelo Billy,  que recebem um salário de fome, mas têm seus impostos devidamente recolhidos. Na fonte.

O país que proíbe UberCabify, e joga de volta ao desespero dezenas de milhares de famílias, tudo para proteger um oligopolio caro, de serviços ruins e ineficiente. Mas com um bom grupo de lobistas. 

Voltemos, portanto, aos riquixás, puxados por bestas humanas e ‘gerando’  milhares de ‘novos empregos’. Ao menos a mão de obra é abundante. 

Inovação? Deixa isso para esses países do ‘norte’. Eles certamente precisam mais do que nós. 

Preparados? 

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Por que digo a mais alunos que eles precisam ler mais: postei, entre ontem e hoje, duas matérias aparentemente desconexas. Aparentemente…

A notícia de ontem, diz respeito à robotização, já presente e cada vez mais comum. A de hoje, fala das novas escolas infantis. 

E o que isso tem a ver? O que a robotização tema ver com as novas escolas? TUDO!

Educação hoje para um mundo de amanhã?

Uma criança que entre na escola hoje, estará no mercado de trabalho e entre os anos 2032 e 2097, aproximadamente (se o Temer não aumentar mais ainda o tempo de contribuição para aposentadoria, rs). Alguns verão a virada de século ainda trabalhando! E o que isso significa? TUDO! Significa que essas crianças de hoje serão profissionais numa época em que a robótica estará tão presente que carros serão autônomos, bancos (financeiros) serão virtuais, assim como o dinheiro. Viagens de longa distância serão rápidas como um trajeto a pé, via Hyperloop ou equivalentes. A energia, renovável, baseada em fusão nuclear, será baratíssima. Celulares serão relíquias esquecidas nos sótãos. Estudar línguas será apenas por prazer (quem se lembra do babel fish?). Uma era onde alimentos sintéticos acabarão com a fome no mundo (gostemos ou não  deles). Ah, os “empregos” (que, na verdade, serão trabalhos), demandarão menos horas (sim, trabalharemos algo como “das 10-16, com tempo de almoço”).

E quais serão as habilidades necessárias nesse novo mundo? Em que medida as escolas de hoje (ou do século XV, dá na mesma) estão preparando essas crianças para esse Mundo Novo meio Black Mirror?

Não tenho respostas, mas sei que meus filhos lerão Aldous Huxley, Isaac Asimov, Ray Bradbury, George Orwell, Philip Dick, Douglas Adams, Arthur Clarke, HG Wells e Julio Verne. 

Ao menos, saberão o que esperar.

#futuro #inovação #educação

Os 9 slides do Prof. Sergio Seloti.Jr

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Um dos momentos mais críticos ao lançar um novo negócio (ou projeto de negócio) é o temido momento do pitch. É difícil falar em fórmulas, já que cada projeto ou negócio tem suas próprias especificidades e características próprias que devem ser ressaltadas. Ainda assim, quando se apresenta um projeto para um investidor (mesmo uma banca de negócios ou um shark tank), há informações – e sequência de informações – que não podem faltar.

Como fazer apresentações, segundo Guy Kawasaki

Guy Kawasaki, conhecido guru do empreendedorismo, sugere uma sequência de 10 slides que contêm toda a informação necessária para este tipo de situação (em português aqui). Ele também se considera um “evangelista da regra 10/20/30” para PowerPoint. Segundo esta regra, nenhuma apresentação corporativa deve ultrapassar 10 slides ao longo de, no máximo, 20 minutos de uma apresentação cujo tamanho das fontes não pode ser inferior a 30 pontos.

Confesso que não trabalho totalmente dentro destes limites, mas costumo seguir a essência de maneira bastante aguda. Apresentações longas não são apenas chatas e cansativas, mas podem dispersar a atenção e jogar contra a própria proposta do momento, que é garantir a absorção do máximo de conteúdo possível. Além disso, fontes pequenas não servem para quem está assistindo a apresentação, mas apenas para um apresentador inseguro que deseje ler a sua fala ao invés de se preparar melhor (e, eventualmente, decorar aqueles dados). Apresentações em mídia visual (sim, eu não quis usar o termo “PowerPoint“, rs) servem como reforço da mensagem de um apresentador, não são o ator principal. Se é para a audiência ficar lendo o que você está falando, é mais rápido entregar-lhes o texto impresso (ou, ainda melhor, um PDF) e eles mesmos se encarregarão de ler, em um ritmo assustadoramente mais rápido do que o apresentador pode falar. Assim, o PPT deve servir como apoio, focado em reforçar a mensagem do apresentador – preferencialmente com palavras-chave, ao invés de textos longos, e imagens. Imagens valem mais que mil palavras, sim.

Há que se ressalvar, porém, que há tipos de apresentações e nem todas se encaixam neste mesmo padrão ou sequência. Uma aula (em escola, faculdade) terá características diferentes (normalmente, mais longa, com tópicos pontuados, algum material que possa ser “copiado” pelo aluno, etc) de uma palestra (com duração intermediária entre uma aula e um pitch para investidor, normalmente mais lúdica, envolvente e que atinja uma audiência mais ampla).

Como fazer apresentações, segundo o prof. Sergio Seloti.Jr

E o que proponho neste sentido? Dentro das orientações de inovação em negócios, tenho sugerido aos alunos utilizarem uma sequência baseada em 9 slides (que, talvez, fossem melhor chamados de “blocos de informações”, já que não precisam se limitar a 9 “telas”).

Cada um desses blocos contempla uma parte do que se deseja apresentar, bem como tem características próprias.

Splash Screen

A tela de abertura, que pode mostrar o logo da empresa/produto de forma destacada, serve para “gravar” a marca na retina da audiência. Normalmente, há um delay entre o início da apresentação visual (PPT) e a apresentação em si (aquele momento em que a audiência ainda não deu o ok para o start do pitch). Parece besteira, mas esse momento é valioso para gravar sua marca. Assim, costumo sugerir aos meus alunos que usem esses preciosos segundos com sabedoria – e assertividade.

O mesmo vale para o final da apresentação: fuja, ou melhor, FUJA do tal slide de “Obrigado” ou “Dúvidas” ou “Perguntas” ou qualquer coisa desse tipo. Ao invés disso – que faz sua apresentação parecer seminário em universidade – substitua essa tela pela sua Splash Screen: aquela mesma que você exibiu no início da apresentação. E ganhe mais alguns segundos de exposição de sua marca enquanto acontece a arguição ou os comentários.

Pode acreditar: quando a audiência vir essa tela novamente, vai saber que sua exposição terminou.

O Problema

Você tem 30 segundos para conquistar sua audiência. Os primeiros 30 segundos de uma apresentação são cruciais para o sucesso. Simples assim. Cruel desse jeito. Aquele seu 1 ano de preparo podem ser destruidos nos primeiros 30 segundos de uma apresentação. E por você mesmo.

Assim, normalmente sugiro que o empreendedor use esses 30 segundos para conquistar a empatia de seus avaliadores. E como fazer isso em 30 segundos??? Dentro do contexto de um pitch, sugiro que a exposição comece apresentando o problema que o negócio pretende resolver. E, se possível, o faça de uma forma que a audiência diga “puxa, isso poderia acontecer comigo!”. Se você conseguir criar esse estímulo, vai ganhar a atenção da sua audiência para o que vem a seguir.

A Solução e a Inovação

Se a sua missão de conquistar empatia for bem sucedida, sua audiência estará ávida por ouvir de que forma você pretende/consegue resolver o problema.

Essa é a sua deixa. Esse é o seu momento. Neste bloco, você vai apresentar a sua Proposta de Valor. Explique como você vai resolver o problema do seu cliente e, se possível, demonstre como você fará isso de uma forma que não é feita ainda – e por quê a sua solução é melhor que os concorrentes.

É neste bloco de informações, também, que se espera ver a inovação. É possível que o foco da inovação esteja no sistema de atividades, modelo de receitas, sem problemas. Mas é importante que, neste momento, o empreendedor já faça referência a isso, apresentando o processo de negócio. 

O Processo

Pode haver quem discorde da apresentação do processo de negócios neste momento e prefira a explanação do público alvo e dos dados de mercado. Não me oponho, mas, pessoalmente, prefiro continuar demonstrando por que – e como – a minha solução é superior às alternativas do mercado. 

Este bloco deve dirimir dúvidas quanto ao funcionamento do negócio. De onde vêm insumos, como será a entrega de valor, o processo central do negócio e outros aspectos operacionais relevantes devem ser expostos aqui. 

O Mercado

Uma vez que o negócio esteja explicado e a proposta de valor tenha sido apresentada, chega a hora de falar mais sobre o público alvo. 

Dois grupos de informações são importantes aqui: de um lado, é importante caracterizar o público, seu perfil de consumo e a necessidade que está sendo satisfeita. Do outro lado, há que se apresentar os grandes números: quantidade de consumidores, volume financeiro que o mercado movimenta, índices de crescimento e outras informações que demonstrem relevância e potencial financeiro.

Mas é importante estar ciente que nem tudo que está no mar é peixe.

A Competição

Certa feita, ao apresentar uma ideia supostamente genial para meu pai, fui “agraciado” com a seguinte resposta: “Filho, eu conheço um Einstein e não é você”. rs

“Filho, eu conheço um Einstein e não é você”

Por mais cruel que pareça (ok, é bem cruel ouvir isso, rs), essa foi uma lição importante para minha vida. Toda ideia, por mais genial que pareça, tem problemas. E, pior que isso: não pense que é o único gênio a ter essa ideia. Há 7 bilhões de pessoas no mundo 🌍: alguém já teve essa mesma ideia que você. Ou uma ideia parecida. Procure, busque com afinco negócios que façam o mesmo que você ou que entreguem o mesmo valor para o cliente de maneira diferente. Quanto mais cedo você estiver a par da concorrência, mais cedo você poderá se preparar para ela.

O Time

Se você vai ter que lidar com a competição e realizar uma proposta de valor que seja realmente relevante para seu cliente, você precisará de um time. É hora de apresentar 

Papo Online #24 – O que é Valor?

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O que é Valor?

Apesar da percepção de valor ser subjetiva, a compreensão do conceito e do funcionamento é objetivo.

Costumo usar uma “fórmula” para o “cálculo” do valor baseada na divisão entre os benefícios percebidos (que podem ser emocionais, monetários, físicos, etc) pelos custos para aquisição desse determinado valor (custos estes que também podem ser de vários tipos, como tempo, emocional, esforço, monetário, etc).

valor

É importante, porém, perceber algumas coisas sobre “valor”:

Valor ≠ Preço

Enquanto preço é a quantidade monetária que dispendemos para adquirir determinado bem/serviço, o valor é a percepção subjetiva de benefícios esperados e o custo associado à esta aquisição. Ou, em português, “preço” é o que você abre mão, enquanto valor é o que você adquire.

Isso desfaz, por exemplo, uma falácia de que “tal produto não vale o que pagamos”. Pode não valer o “preço” de etiqueta, mas se nos dispomos a pagar, então entendemos que, por menor que seja a vantagem, há um “valor” que é superior ao preço pago.

Valor é subjetivo

Apesar da fórmula ser a mesma para todos, a percepção dos benefícios e custos assumidos (portanto, de valor) é subjetiva, ou “referente ao subjeto, ao sujeito”. Assim, o que é valor para mim pode não ser valioso para outro. Eu, por exemplo, acho que “vale a pena” pagar o dobro do preço no Ovomaltine, há quem acha que não vale. Há, também, quem acredite valer a pena pagar 1,5 milhão numa Ferrari. Eu não acho (hehehe). De qualquer forma, entender o mecanismo pode ajudar empreendedores a ofertar algo que seja – de fato – valioso para seus clientes.

Valor não é apenas o que eu ganho, mas o que eu “abro mão”

Já comentamos acima: o valor é uma percepcão de benefícios, mas também é uma noção dos custos para aquisição desses benefícios. Portanto, quando perguntamos se algo “vale a pena”, entendemos que há um “valor”, mas há também uma “pena”, uma penalização, um custo para a sua aquisição. Assim, se entendemos que há um custo para aquisição de um ganho, a conta se torna mais complexa – mas também mais interessante. Ignorasse os custos para aquisição, seria muito fácil adquirir os “maiores valores possíveis”, sem nos preocuparmos com os custos, mais ou menos como um bandido que tenha a certeza da impunidade (conhecemo uma situação assim? rs)

Valor de um produto/serviço é atribuído pelo cliente, não por nós

Essa é, talvez, a lição mais dura: por mais que achemos que aquele produto ou serviço que oferecemos seja fantástico, incrível, imprescindível, quem tem que “achar” isso é o cliente, não nós. Assim, se o cliente não enxerga valor no que oferecemos, estamos fadados ao fracasso. E esse valor, subjetivo, pode ser emocional, social, monetário, físico, o que for, desde que seja valor para o cliente, para quem vai consumir esse bem ou serviço.

E você, o que acha? O que é valor?

Bel Pesce e a hamburgueria do Belzebu

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A polêmica da semana é dela: A Menina do Vale, Bel Pesce.

Esse vídeo é para dizer o que eu penso de toda essa história, das palestras, empreendedorismo de palco e afins. Muitos alunos vêm me perguntar “Professor, o que você acha da Bel?”

A polêmica da hamburgueria da Bel Pesce

Na semana passada, Bel Pesce (vulgarmente conhecida como a Menina do Vale) criou um projeto de crowdfunding para montar uma hamburgueria (eu chamaria de lanchonete) com o vencedor do MasterChef BrasilLeonardo Young.

E qual a confusão? Independente de dar certo ou não o projeto de financiamento coletivo (pessoalmente, não vejo problemas com isso), o problema foi que o timing inadequado, junto com uma falta de oferecer um negócio que valesse a pena de ser financiado, somado – esse o grande problema – a uma série de pequenas mentiras contadas pela Bel levaram à uma campanha terrível de desconstrução do personagem “Menina do Vale”. Ela, que sempre foi muito conhecida no ambiente, na cena empreendedora, nunca havia sido questionada – ou exposta – fora desse contexto e, uma vez que aconteceu (e a exposição do vencedor do MasterChef amplificou isso), boa parte dessa história se revelou falsa (ou, sendo “polido”, algumas histórias foram bastante exacerbadas). A partir daí começa a confusão.

Izzy Nobre vs Bel Pesce

E aqui começa a confusão: o blogueiro Izzy Nobre escreve um texto onde praticamente disseca quem é Bel Pesce, questionando sua formação, os minors e mayors que ela tem, seu diploma, se ela é de fato fundadora de algumas das empresas que ela disse fundar (e a conclusão é que não, no máximo pode ser considerada do time inicial de uma delas, a Lemon Wallet). E isso detona a imagem da Bel Pesce – e eu não sei qual será o impacto sobre os negócios (atuais) da Bel Pesce, acredito que terá um impacto negativo nesse momento, além de desencadear uma avalanche de posts, textos de blogs e vídeos sobre o caso.

Mas meu ponto não é esse.

O que é empreendedorismo?

Antes de qualquer análise sobre o caso (e não sobre a Bel em si, que já me parece bastante exposta), precisamos responder à questão: o que é empreendedorismo?

Vocês sabem que sou um acadêmico, que minha tese de doutorado, defendida no começo de 2015 foi sobre empreendedorismo (e histórias de empreendedores), então acredito que tenho algo a falar sobre o tema.

O conceito de empreendedorismo que é bastante aceito e difundido hoje é a idéia de alguém que abre um negócio, uma empresa. E ponto. Você abre uma barraca de cachorro quente e pronto, é empreendedor. Abre uma hamburgueria (por que não “lanchonete”???) e, voilà, é empreendedor. Eu, pessoalmente, discordo dessa definição. De minha parte, aceito a definição de Schumpeter, que diz que o empreendedor é o agente de inovação e transformação da sociedade a partir da introdução de novos produtos ou serviços (vulgo, inovação). Ou seja, o empreendedor não é apenas alguém que tenha uma empresa, mas alguém que inova a partir dessa empresa e que funciona como alguém que empreende uma jornada.

Então, essas duas definições (a clássica e a moderna) já tiram do rol de “empreendedores” boa parte dessas novas celebridades da categoria de empreendedores.

Empreendedor de fato ou empreendedor de palco

Além disso, há uma discussão – essa, a meu ver, ainda mais profunda e urgente – sobre o que é o empreendedor de fato e o que é o empreendedor de palco, que é alguém que dá palestras motivacionais sobre empreendedorismo. E, pessoalmente, não considero esse segundo grupo como empreendedores, por mais dinheiro que façam. Não os respeito como empreendedores. Como pessoas de sucesso financeiro? Sim, mas não como empreendedores. Acredito até que haja valor nisso, mas como motivação, não como caso real.

E a Bel Pesce, então?

A Bel Pesce é um caso curioso. Me perguntam “A Bel é empreendedora?

E a minha resposta é: “Antes, não!“. Quando ela se vendeu como a Menina do Vale, com forte apoio do Flávio Augusto, ela não era. Nem sob o ponto de vista moderno, de abrir uma empresa, nem sob o ponto de vista clássico, da inovação. Então a Bel Pesce começa, na verdade, como uma história, como um personagem: A Menina do Vale.

E hoje? Hoje, sim, é empreendedora. Em ambos os conceitos: o moderno e o schumpteriano. É um caso interessante de profecia auto-realizável: ela não era empreendedora, ela se vendeu como empreendedora e, assim, se tornou – de fato – empreendedora.

Eu passei a respeitá-la como inovadora depois do lançamento do Conecta Game, um jogo para estimular pessoas a gerar idéias criativas, desenvolvido em parceria com a Copag. E a FazInova, sua empresa de treinamento, atende ao outro critério, de alguém que tem uma empresa. “Ah, mas é uma empresa para vender palestras dela”, não é. Vende palestras, sim, mas vende treinamento, também, com uma equipe, funcionários, estrutura física, tudo certinho. Então, você pode gostar ou não, mas ela tem uma empresa, sim.

E a hamburgueria?

Eu acho que foi um tiro no pé por conta da exposição e, principalmente, porque não tinha nada de inovação, nada que justificasse um crowdfunding. Pô, aplica aquilo que você ensina, né, Bel? Faz um modelo de negócios inovador, uma hamburgueria (LANCHONETE!) por assinatura, que você paga mensal e pode comer a vontade, sei lá (olha eu dando consultoria de graça de novo!). E aí vende as primeiras adesões pra levantar a grana, aí sim eu acho que o efeito seria inverso. Ao invés de manchetes como “A farsante da Bel”, leríamos coisas como “A Menina do Vale inova mais uma vez”. Mas, como foi feito, ficou ridículo, foi um tiro no pé.

E agora?

Agora a Bel ainda está tentando se defender da artilharia (e artilharia de internet é cruel!), ainda vai ter a fase da poeira abaixar e, do pouco que conheço da garota, é bem provável que ela fique quebrando a cabeça para montar um p*ta negócio legal e voltar esfregando na cara de todo mundo. Vai conseguir? Não sei. Mas eu colocaria umas moedinhas para apostar que vai tentar.

E você, o que achou dessa confusão toda?


Links para saber mais

Vencedor do MasterChef e Bel Pesce usam crowdfunding para abrir hamburgueria
http://corporate.canaltech.com.br/noticia/negocios/vencedor-do-masterchef-e-bel-pesce-usam-crowdfunding-para-abrir-hamburgueria-78083/

Bel Pesce e o empreendedorismo de palco: porque a Menina do Vale não vale tanto assim
https://medium.com/@izzynobre_24233/bel-pesce-e-o-empreendedorismo-de-palco-porque-a-menina-do-vale-n%C3%A3o-vale-tanto-assim-da9e0c917844#.9eux4hwns

Bel Pesce é fraude?

Izzy Nobre v Bel Pesce – Treta Internacional

Após polêmica, Bel Pesce faz desabafo sobre tentativas de ‘desmascará-la’ na internet
http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2016/09/01/bel-pesce-faz-desabafo-sobre-tentativas-de-desmascara-la-na-internet/

Bel Pesce: empreendedora mal compreendida ou farsa midiática?
http://www.tecmundo.com.br/polemica/109167-bel-pesce-empreendedora-mal-compreendida-farsa-midiatica.htm

Caso Izzybel ou Bel Pesce é uma fraude: Estadão tenta desqualificar blogueiro Izzy Nobre, mas…
http://www.obrasil.online/economia/caso-izzybel-ou-bel-pesce-e-uma-fraude-estadao-tenta-desqualificar-blogueiro-izzy-nobre-mas/

A resposta de Bel Pesce: Quando a emenda sai pior que o soneto, parte 1
http://hbdia.com/dossie-hbd/a-resposta-de-bel-pesce-quando-a-emenda-sai-pior-que-o-soneto-parte-1/

CEO agora diz que Pesce não começou Lemon, mas pode ser chamada cofundadora
http://economia.uol.com.br/empreendedorismo/noticias/redacao/2016/09/04/ceo-agora-diz-que-pesce-nao-comecou-lemon-mas-pode-ser-chamada-cofundadora.htm

VENCEDOR DO MASTERCHEF E BEL PESCE CANCELAM FINANCIAMENTO COLETIVO APÓS REVOLTA NA WEB
http://revistapegn.globo.com/Noticias/noticia/2016/08/vencedor-do-masterchef-e-bel-pesce-cancelam-hamburgueria-apos-revolta-na-web.html

Bel Pesce tenta explicar o crowdfunding para hamburgueria
http://startse.infomoney.com.br/portal/2016/08/29/22139/bel-pesce-tenta-explicar-o-crowdfunding-para-hamburgueria/

Quem é Bel Pesce?
https://www.belpesce.com.br/sobre

Bel Pesce apresenta diplomas e documentos para tentar comprovar formação e experiência
http://www.brasilpost.com.br/2016/09/02/bel-pesce-diploma_n_11841396.html

Hamburgueria ‘Zebeléo’ não vai ter mais financiamento coletivo, anuncia Bel Pesce
http://www.brasilpost.com.br/2016/08/26/financiamento-coletivo-zebeleo-cancelado_n_11718658.html

Fundador da Lemon desmente papel de Bel Pesce na empresa, mas volta atrás
http://corporate.canaltech.com.br/noticia/personalidades/fundador-da-lemon-desmente-papel-de-bel-pesce-na-empresa-mas-volta-atras-79063/

Crowdfunding da hamburgueria de Leo e Bel Pesce é cancelado
http://exame.abril.com.br/pme/noticias/crowdfunding-da-hamburgueria-de-leo-e-bel-pesce-e-cancelado

Análise da linguagem corporal de Bel Pesce

O milagre da missionária Bel

O melhor vídeo sobre o assunto: Kibeleo

Quer contribuir?
https://www.patreon.com/ProfSergioJr

Pokemon Go! A brincadeira é séria

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Sim, é um fenômeno! Ou seria uma febre? O jogo Pokemon Go, da Niantic (mesma produtora do Ingress) já teve mais de 80 milhões de downloads!!! (e são mais 7 milhões por dia, entre Android e iPhone).

Por mais polêmico que seja – a febre criou uma legião de fãs e uma legião de odiadores, ambos bastante fervorosos – o jogo, que une geolocalização, mobile, social e realidade aumentada, é um negócio. E um negócio milionário! O investimento de cerca de 30 milhões de dólares (feito por pequenas empresas como Google e Nintendo) já se pagou e rendeu um incremento de 22 bilhões (sim, BILHÕES) de dólares no valor da Nintendo, só pra ter uma ideia.

A grande celeuma, porém, se dá no tocante à febre do jogo: pessoas andando nas ruas com seus celulares nas mãos, seguindo um mapa ou um indicador de um bichinho que só pode ser visto através da tela do celular. Na verdade, nada muito diferente do que já acontece hoje. É essa a celeuma e, nesse caso, me coloco fora. Não jogo, acho meio sacal, faço piada com quem joga, mas fica nisso. Entendo que cada um faz o que quer da própria vida. Também não devemos ignorar – principalmente no Brasil e em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro – que andar pela cidade com o celular na mão e atenção focada na tela – e não no ambiente à sua volta – podem apenas facilitar a ação de ladrões e batedores de carteiras (nesse caso, de celulares). O Metrô de São Paulo e outros órgãos já estão alertando alguns desavisados caçadores de Pokémon sobre os riscos de não prestarem atenção por onde andam. Nada diferente do que a mãe da Chapéuzinho Vermelho já fazia, sei lá, muitas histórias atrás.

E pra quem gosta, uma das melhores interpretações do tema de abertura do Pokemon

PS: Joguem Ingress 😊